Que tipo de turismo Matinhos pode desenvolver?

Matinhos vive hoje uma condição curiosa e, ao mesmo tempo, cheia de possibilidades.

Não é uma cidade turística consolidada, como muitos ainda insistem em classificá-la. Tampouco pode ser reduzida apenas a um balneário de verão. A verdade é que Matinhos está no meio do caminho: é uma cidade de veraneio que ainda não estruturou seu potencial turístico real.

Reconhecer isso não é um problema. Pelo contrário: é o primeiro passo para uma transformação verdadeira.

Matinhos não precisa “virar outra cidade”

Um erro comum nos debates sobre turismo em Matinhos é tentar compará-la com destinos que possuem outra história, outro capital privado, outra lógica urbana e outro perfil de visitante. Copiar modelos não funciona.
O que funciona é entender o território, suas limitações e, principalmente, suas vocações.

Matinhos não precisa competir com grandes polos turísticos. Ela pode — e deve — construir um turismo próprio, alinhado com sua escala, sua cultura e sua realidade econômica.

O turismo possível é melhor que o turismo idealizado

Hoje, grande parte das ações públicas se concentra em eventos pontuais, especialmente no verão. São iniciativas importantes, mas altamente sazonais. Elas movimentam a cidade por alguns dias e depois deixam um vazio econômico que dura meses.

Se o objetivo é gerar prosperidade, independência econômica e qualidade de vida, Matinhos precisa olhar para um turismo que:

  • funcione ao longo do ano;
  • gere renda recorrente;
  • envolva a população local;
  • e dialogue com o setor privado de forma estruturada.

Isso exige menos espetáculo e mais estratégia.

Os eixos de turismo que fazem sentido para Matinhos

Ao analisar o território, o perfil do visitante e os ativos naturais da cidade, alguns caminhos se mostram claros:

1. Turismo de natureza e experiência

Matinhos possui praias, morros, áreas verdes e uma paisagem que convida à contemplação e ao contato com a natureza.
O visitante que busca isso não vem apenas “passar o dia”. Ele busca:

  • caminhadas,
  • trilhas,
  • mirantes,
  • experiências guiadas,
  • contato genuíno com o lugar.

Esse turismo é menos predatório e mais duradouro.

2. Turismo de segunda residência e permanência prolongada

Hoje, Matinhos já é, na prática, uma cidade de veraneio para Curitiba e região metropolitana.
O que falta é organizar essa vocação:

  • melhor infraestrutura urbana,
  • serviços funcionando fora da alta temporada,
  • experiências que façam o visitante permanecer mais tempo.

Quando a permanência aumenta, a economia local respira.

3. Turismo esportivo e de bem-estar

Surf, caminhadas, atividades ao ar livre, saúde mental, descanso.
Esse tipo de turismo cresce no mundo inteiro e não depende de grandes obras, mas sim de:

  • organização,
  • calendário,
  • parcerias locais,
  • comunicação eficiente.

Matinhos tem todas as condições naturais para isso.

4. Turismo cultural e identitário

Toda cidade que prospera turisticamente sabe contar sua própria história.
Matinhos ainda explora pouco sua identidade, sua memória, sua relação com o mar e com a serra.

Não se trata de criar atrações artificiais, mas de valorizar o que já existe, dando forma, narrativa e visibilidade.

O papel do poder público e da iniciativa privada

Aqui está um ponto sensível — e necessário.

O poder público, sozinho, não consegue estruturar um novo ciclo econômico.
A iniciativa privada, sozinha, tende a explorar oportunidades de curto prazo.

O equilíbrio está na convergência:

  • planejamento público claro e contínuo;
  • ambiente favorável para investimento responsável;
  • diálogo com quem vive e empreende na cidade.

Quando isso acontece, todos ganham — cada um na sua moeda: política, econômica ou social.

O turismo como ferramenta de prosperidade, não de dependência

Mais do que atrair visitantes, o turismo deve:

  • gerar empregos estáveis,
  • fortalecer pequenos negócios,
  • valorizar o território,
  • criar orgulho local.

Quando bem conduzido, ele reduz a dependência de ciclos políticos e cria uma economia mais resiliente.

Um convite à reflexão e à ação 

Este artigo não é uma crítica, nem um manifesto político.
É um convite à reflexão madura sobre o futuro de Matinhos.

A cidade tem potencial.
O momento é favorável.
As obras de infraestrutura ajudam.

Mas sem visão estratégica, tudo isso corre o risco de se perder na sazonalidade.

Pensar que tipo de turismo Matinhos pode desenvolver é, na verdade, pensar que tipo de cidade queremos construir — para quem visita, mas principalmente para quem vive aqui.

Por Paulo Vicedo


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